Antonio Stradivari (1644-1737)

O violino mais antigo, portando uma etiqueta com menção a Antonio Stradivari é datado de 1666. Apesar de não ter sido encontrado seu registro oficial de nascimento, especula-se por esse violino e por seus últimos violinos (nos quais constava a data de sua idade na etiqueta no momento da finalização), que tenha nascido no ano de 1644.

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Muitas fontes afirmam que Stradivari pode ter sido aluno de Nicolò Amati, porém nos registros do censo de Cremona em nenhum ano aparece seu nome na casa Amati. FABER (2004), especula que apesar de este primeiro violino de 1666, constar uma inscrição “aluno de Nicolò Amati” e esta etiqueta ser produto de uma matriz, o violino do ano seguinte (e os sequentes ), apresentam características construtivas diferentes e uma etiqueta proveniente de uma nova matriz. Como seu nome, aparece na mesma época na lista do Censo, como morador da casa do artesão e escultor em madeira, Pescaroli, deduz-se que ele pode ter tido algumas orientações esporádicas de Amati (já que Amati e Pescaroli moravam muito próximos), mas nunca ter sido seu aluno regularmente.

 

Seus primeiros instrumentos são extraordinariamente bem entalhados e marchetados, vestígio de sua experiência como entalhador trabalhando para Pescaroli.

Até 1680 a produção parece ter sido baixa, sabe-se da existência de somente 18 violinos, reflexo ainda da sua fala de independência financeira, talvez ainda até esta data trabalhava para Pescaroli. Sobretudo, estes se assemelham aos violinos contemporâneos cremoneses, sem nenhuma modificação considerável levada a cabo por Stradivari.

No fim da década de 1680 apostou em violinos incrivelmente ornamentados, especula-se que os tenha feito para afirmar excelência e alguma propaganda, pois só veio a vendê-los anos depois.

A esta altura, Stradivari havia desenvolvido dois moldes internos denominados MB e S, modelo Buono e Secondo respectivamente, acredita-se fruto de experimentações acústicas no sentido de considerar as propriedades especificas da madeira que tinha em mãos.

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Depois de uma variação de aproximadamente 5 moldes, em 1689, ele produziu um sexto molde denominado PG, (Piu Grande). Dois anos depois, um sétimo, com um largura um pouco menor. Seis meses depois, um novo molde, mantinha as lombadas estreitas, mas ampliando o comprimento e a largura da cintura. Finalmente em 1692, um nono molde mantinha essas larguras, mas diminuía o comprimento de volta às dimensões dos violinos anteriores de Stradivari. Em 1697 uma pequena modificação, aumento no comprimento e diminuição da largura. A medida que desenvolveu seu modelo mais longo, foi gradualmente reduzindo o arqueamento do tampo e do fundo.

Entre 1695 e 1697, a produção de Stradivari diminuiu consideravelmente como se ele estivesse lutando contra as formas, até que em 1698 ele voltou a fazer violinos utilizando os traçados de Amati. Entre os anos de 1698 e 99 a produção aumentou consideravelmente, sabe-se da existência de pelo menos 25 violinos e 4 violoncelos deste período.

Ainda no ano de 1705, ele adotou um novo molde interno batizado de P (prima?) de dimensões semelhantes aos do ano de 1689. Este haveria de ser usado pelos anos posteriores.

Em 1708 criou um outro molde G (grande?) um pouco maior, porem que não desbancou os antecessores. Seus últimos violinos até sua morte em 1737, foram feitos alternando ambas formas PG, P e G.

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forma PG de Stradivari original, fonte: Museu Stradivariano Cremona

Stradivari parece ter sido um grande experimentador e pesquisador. Chegou até nossos dias, grande parte das ferramentas e moldes utilizados por ele durante sua numerosa produção de violinos, aproximadamente mil unidades, dentre violinos, violas e violoncelos.

Felizmente depois de sua morte um Conde de nome Cozio de Salabue, que desde jovem desenvolveu uma paixão por violinos e considerou seu dever deter o declínio da sua construção, tratou logo de entrar em contato com Paolo Stradivari, o filho mais novo e então comprar todo o conteúdo do espólio do luthier, contendo ferramentas, moldes desenhos e todos os violinos que ainda restavam no ateliê, (FABER, 2004).

Esses moldes ainda permaneceram por gerações na família do conde, sendo compradas da família pelo estado italiano na década de 1930 com o objetivo da inauguração do museu Stradivariano em 1937. Com isso, muitos pesquisadores e luthiers posteriores puderam ter acesso a essa grande quantidade de informações, dentre eles Simone Fernando Saconni.

É muitas vezes creditada ao Conde Cozio de Salabue o inicio da fama de Stradivari, devido a sua enorme admiração ao trabalho do luthier e também ao grande numero de exemplares do mestre que acumulou durante sua vida. Já idoso, fez sucessivos leilões para vender sua coleção. Esses leilões ganharam fama e muitos músicos virtuoses de toda a Europa vieram a tomar conhecimento dos violinos de sua coleção. Atribui-se a este fato o inicio do reconhecimento da supremacia de Stradivari.

Atribui-se igualmente ao violinista virtuose Giovanni Battista Viotti (1755-1824) a escalada de reconhecimento dos instrumentos de Stradivari. Em suas apresentações o virtuose frequentemente defendia a superioridade destes instrumentos.

Os irmãos Hill, consolidaram-se como uma família especializada em violinos na Inglaterra, no final do século XVIII. Inicialmente começaram construindo instrumentos e depois especializaram se em reparos e comercialização. Com o passar dos anos ficaram famosos por escreverem biografias detalhadas e precisas dos luthiers mais proeminentes e também de alguns exemplares dos violinos de Stradivari que apresentavam ótimas qualidades de timbre. Eles tiveram acesso e posse a um acervo enorme de violinos produzidos por estes luthieres. Também foram hábeis negociadores, intermediadores e consultores de instrumentos de cordas. Em seu livro mais importante, Vida e Obra de Stradivari, detalharam minuciosamente vários violinos Stradivarius que passaram por suas mãos e a quantidade de formas e gabaritos que Stradivari usou em toda sua construção. Segundo FABER, calcula-se que passaram pelas mãos dos irmãos Hill (o pai William Ebsworth Hill e os filhos Alfred e Arthur), cerca de 700 Stradivarius, o que credita a eles a reputação de maiores conhecedores e especialistas das obras deste autor e dos demais construtores cremoneses. Seu livro foi um divisor de aguas, para o conhecimento dos métodos, formas, vernizes e características de Stradivari e ainda hoje usado por qualquer iniciante em luteria. Credita-se a eles também, o aumento significativo da valorização dos Stradivarius e de suas respectivas transações.

Por esta época os violinos de Stradivari estavam nas mãos dos maiores virtuoses e especialistas no assunto. Nomes como Pablo de Sarasate, Leopold Auer, Joseph Joachim, Marie Hall, Henrik Wieniawisky e tantos outros puderam contribuir para a supremacia de Stradivari no mundo da música.

Nos anos posteriores, aproximadamente de 1910 até hoje, a valorização dos instrumentos de Stradivarius foi exponencial e sua disputa tornou-se acirrada. Muitas instituições, museus e fundações, com objetivos de empresta-los aos virtuoses, detém estes instrumentos. Muitos dos virtuoses deste século usufruíram deste beneficio. Quase que a maioria dos grandes concertos de virtuoses da década de 20 até os dias atuais foram feitos empunhando um Stradivarius.

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Stradivari, 1683, fonte: Ashmolean Museum

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